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Como interpretar o cabeçalho de um spam
 
Marlon Borba
 
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Após perceber que recebeu mais um spam, depois de vários minutos conectado e à espera das mensagens, você se pergunta o que poderia fazer para combater essa praga, constante invasora das caixas postais do usuário de Internet. A primeira providência é observar os cabeçalhos (headers) da mensagem de correio eletrônico. A partir deles é possível determinar, com precisão e de maneira quase imune a fraudes, de "onde" (isto é, de que máquina) partiu o spam e, a partir daí, fazer a queixa ao provedor responsável. Assim, neste breve tutorial, procurarei explicar-lhes como interpretar as informações dos cabeçalhos e, de posse delas, a quem fazer as reclamações pertinentes.

Interpretação do Cabeçalho

Para tornar a explicação o mais próximo possível da realidade, utilizaremos exemplos reais de cabeçalhos de spam. Todo programa de correio eletrônico permite enxergá-los. Não pretendemos, por motivo de espaço e por brevidade, expor detalhadamente como fazer isso, uma vez que existem muitos e diferentes softwares de correio no mercado. Recomendamos, nesse caso, uma consulta ao seu manual de instruções.

Comecemos pela análise do cabeçalho de um spam comum, desses tão freqüentemente encontrados no dia-a-dia. O endereço de destino foi editado para preservar a identidade do receptor da mensagem. As demais partes mantêm-se verdadeiras. Observe:

Return-path:
Received: from mentiras.com
(1-114.mganm700-2.telepar.net.br [200.181.210.114])
by mail-server.xyz.com.br; Wed, 08 Oct 2003 12:22:42 -0300
From: "mentiras"
To:
Subject: Detector de mentiras
Sender: "mentiras"
Mime-Version: 1.0
Content-Type: text/html; charset="ISO-8859-1"
Date: Wed, 8 Oct 2003 12:28:13 -0300
Content-Transfer-Encoding: 8bit

Em todo cabeçalho de e-mail existem linhas que se originam do programa de correio eletrônico (por sinal, a maior parte delas) e linhas que são adicionadas pelos servidores de correio eletrônico que manuseiam sua mensagem a cada passada pelo caminho. Aqui é interessante fazermos um pequeno desvio para falar do processo de manipulação dos e-mails pelos servidores na Internet.

Aparentemente, quando um internauta envia sua mensagem para o destinatário, ela parece ir de uma caixa-postal a outra "magicamente". Não é o que acontece. Cada e-mail passa por pelo menos um servidor de correio eletrônico: o do provedor onde está a conta do receptor da mensagem. Assim acontece nos casos em que o usuário envia a mensagem diretamente a partir de seu micro pessoal para o servidor de correio do destinatário - técnica, por sinal, utilizada pelos spammers, como veremos mais adiante.

Existem provedores que não permitem ao usuário o envio direto de correio; as mensagens têm de passar primeiro para o servidor de correio do provedor que se encarrega de contatar os outros servidores e de fazer a mensagem. Fazendo uma comparação com um sistema de correio em papel, no primeiro caso, o escritor da mensagem a entrega diretamente na caixa postal do destino, e no outro caso entrega o envelope em uma agência dos Correios, que se encarrega do envio da mensagem.

Para envio das mensagens, os clientes de correio e os servidores utilizam-se de um método padronizado de comunicação, um protocolo, chamado SMTP. Portanto, os servidores de correio eletrônico são também chamados de servidores SMTP.

Assim, seu correio eletrônico passa, no mínimo, por um servidor SMTP, aquele onde está a caixa postal eletrônica do destinatário. Se você assina um provedor, pode ser que tenha de usar o servidor SMTP dele para o envio da sua mensagem. E, se você estiver dentro de uma empresa, os mecanismos de segurança utilizados podem exigir que você utilize um servidor SMTP dentro da sua empresa, que por sua vez se comunique com outro do seu provedor, e assim sucessivamente. Em outras palavras, sua carta passa sempre por uma ou mais agências dos Correios.

Embora existam diferentes elementos dos cabeçalhos definidos pelas normas que regulam o protocolo SMTP, deteremos nossa atenção especificamente sobre o header "Received", que é acrescentado pelos servidores SMTP a cada passo da sua mensagem. Esse header, inserido na mensagem automaticamente em cada servidor pelo qual ela transita, é muito difícil, senão impossível, de fraudar. Sempre haverá pelo menos um header Received em qualquer mensagem de correio eletrônico.

O trecho dos cabeçalhos que nos será útil para a denúncia do spam é o primeiro campo Received acima do campo From colocado por algum servidor de correio do nosso provedor, onde está a nossa caixa postal, pois contém o endereço do último servidor que manuseou a mensagem antes de ela ser entregue (este, aliás, geralmente identifica o provedor ou empresa da qual se originou o spam).

Observando o exemplo anterior, lá encontramos:-

Received: from mentiras.com
(1-114.mganm700-2.telepar.net.br [200.181.210.114])
by mail-server.xyz.com.br; Wed, 08 Oct 2003 12:22:42 -0300

Façamos, ponto a ponto, uma avaliação do "Received" dessa mensagem.

De um modo geral, a forma do cabeçalho é

Received: from
(nome verdadeiro do computador [endereço ip])
by (versão do "software" de correio) with ESMTP id for

O que significam essas informações?

Todo computador, quando inicia uma conversação SMTP com outro, apresenta-se e diz seu nome, verdadeiro ou fictício, usando a diretiva smtp HELO (traduzindo literalmente, "hello", olá). No entanto, os servidores SMTP de hoje, sabendo o endereço IP (isto é, número que identifica a máquina na Internet), conseguem, quando é possível, descobrir o verdadeiro nome da máquina. No exemplo, 1-114.mganm700-2.telepar.net.br. Esse endereço IP é o que aparece logo depois do verdadeiro nome. Nem sempre este é identificado; nesse caso, só aparece o endereço IP. Assim, é preciso usar um recurso chamado Whois para identificar a quem pertence esse endereço IP e portanto o destinatário da reclamação (mais a respeito disso na próxima seção, "Como (e a quem) reclamar").

A seguir, o servidor de correio coloca o seu próprio (e verdadeiro) nome; alguns inserem a versão do "software" de correio que está usando (Sendmail, por exemplo, é um dos mais usados); em alguns casos coloca um número de identificação da mensagem (a chamada ESMTP id) que é usado para seu controle interno e seus "logs"; e a data e a hora de recepção da mensagem. É preciso observar que a hora é a local do servidor receptor da mensagem, que pode nem estar no Brasil, mas em um fuso horário completamente diferente.

Em muitos cabeçalhos aparece também o endereço de correio eletrônico do destinatário real da mensagem, depois da diretiva "for" (para). É a ele, e nem sempre ao receptor cujo endereço aparece no cabeçalho "To:", que o servidor SMTP entrega a mensagem. Em conseqüência disso não se pode confiar no "To:" para se saber com certeza o destino da mensagem. Quando não está presente essa diretiva "for", presume-se que o destinatário da mensagem é a pessoa que a recebeu em sua caixa-postal.

Interpretando o cabeçalho do exemplo, a mensagem foi recebida de um computador que se apresenta como mentiras.com, mas tem como seu verdadeiro nome 1-114.mganm700-2.telepar.net.br e como endereço IP o 200.181.210.114.

Quando existem dois ou mais servidores envolvidos no processo de entrega, os "headers" Received aparecem numa ordem lógica, ou seja, cada servidor acrescenta um Received em cima do último encontrado na mensagem. Vejamos este exemplo:

Received: from mailgate.immense-isp.com (mailgate.immense-isp.com [121.214.11.102]) by mailhost3.immense-isp.com (8.8.5/8.7.2) with ESMTP id LAA30141 for Tue, 18 Mar 1997 14:41:08 -0800 (PST)
Received: from firewall.immense-isp.com (firewall.immense-isp.com [121.214.13.129]) by mailgate.immense-isp.com (8.8.5/8.7.2) with ESMTP id LAA20869 for Tue, 18 Mar 1997 14:40:11 -0800 (PST)
Received: from firewall.bieberdorf.edu (firewall.bieberdorf.edu [124.211.4.13]) by firewall.immense-isp.com (8.8.3/8.7.1) with ESMTP id LAA28874 for Tue, 18 Mar 1997 14:39:34 -0800 (PST)
Received: from mail.bieberdorf.edu (mail.bieberdorf.edu [124.211.3.78]) by firewall.bieberdorf.edu (8.8.5) with ESMTP id LAA61271; Tue, 18 Mar 1997 14:39:08 -0800 (PST)
Received: from alpha.bieberdorf.edu (alpha.bieberdorf.edu [124.211.3.11]) by mail.bieberdorf.edu (8.8.5) id 004A21; Tue, Mar 18 1997 14:36:17 -0800 (PST)
From: rth@bieberdorf.edu (R.T. Hood)

A mensagem de correio em questão foi escrita localmente em um computador chamado alpha.bieberdorf.edu (cujo endereço IP é 124.211.3.78) e depois entregue a um servidor de correio funcionando na mesma rede (mail.bieberdorf.edu). Como a rede da Universidade Bieberdorf possui um "firewall", ou seja, um equipamento de proteção entre a sua rede e a Internet, seria preciso atravessá-lo para prosseguir no envio da mensagem. Como pode ser isso? Por meio de um servidor SMTP no próprio "firewall". O provedor do usuário receptor da mensagem, chamado immense-isp.com, também utiliza um desses computadores de segurança para se resguardar de ataques vindos da Internet. Assim, este utiliza um servidor SMTP dentro do "firewall", que recebe a mensagem e a encaminha para o servidor de correio interno da empresa (mailgate.immense-isp.com), e este a deposita na conta do usuário.

Observe a ordem dos "headers": descendente de data e de hora de chegada, e na exata seqüência dos servidores que manipularam a mensagem. Daí decorre a quase impossibilidade da fraude dos cabeçalhos Received. Outro fato que denuncia uma tentativa de ocultar a origem da mensagem é a presença de um header Received deslocado, ou seja, fora do conjunto dos demais (quando existe mais de um, eles estão juntos).

Chamo a sua atenção, prezado leitor, para o exemplo a seguir:

Received: from unwilling.intermediary.com (unwilling.intermediary.com [98.134.11.32]) by mail.bieberdorf.edu (8.8.5) id 004B32 for Wed, Jul 30 1997 16:39:50 -0800 (PST)
Received: from turmeric.com ([104.128.23.115]) by unwilling.intermediary.com (8.6.5/8.5.8) with SMTP id LAA12741; Wed, Jul 30 1997 19:36:28 -0500 (EST)
From: Anonymous Spammer
To: (recipient list suppressed)
Message-Id:
X-Mailer: Massive Annoyance
Subject: WANT TO MAKE ALOT OF MONEY???

Em geral, nos cabeçalhos Received, observa-se que os servidores de "e-mail" pertencem ao mesmo domínio (definindo em um sentido amplo, é a designação pela qual se conhece, na Internet, uma determinada rede) da conta de correio eletrônico do remetente e do destinatário. No entanto, o exemplo mostra um terceiro servidor, que não faz parte da rede do domínio de origem e nem do de destino.

Esse é mais um exemplo de servidor SMTP que permite "relay" aberto de mensagens ("open-relay"). Servidores "open-relay" não verificam, como deveriam, se (a) o destinatário da mensagem está dentro do domínio para o qual prestam serviços, e/ou (b) o remetente da mensagem pertence a esse domínio. Eles permitem o envio não-autorizado de correio eletrônico para qualquer domínio. Embora as boas práticas de administração de servidores de correio tendam a fazer diminuir o número de servidores "open-relay", ainda existem muitos deles em operação, para alegria dos spammers, que os utlizam na tentativa de mascarar a efetiva origem do lixo eletrônico.

Examinemos, para concluir, este exemplo de cabeçalho:-

Received: from mail.bieberdorf.edu (mail.bieberdorf.edu [124.211.3.78]) by mailhost.immense-isp.com (8.8.5/8.7.2) with ESMTP id LAA20869 for ; Tue, 18 Mar 1997 14:39:24 -0800 (PST)
Received: from alpha.bieberdorf.edu (alpha.bieberdorf.edu [10.11.3.11]) by mail.bieberdorf.edu (8.8.5) id 004A21; Tue, Mar 18 1997 14:36:17 -0800 (PST)

Aqui observamos, no primeiro Received, que o endereço IP da máquina alpha.bieberdorf.edu é 10.11.3.11. Pode acontecer que a rede da Universidade Bieberdorf utilize endereços especiais, ditos reservados, que só podem ser usados na estrutura interna, como os iniciados por 10. As seguintes faixas de IPs são reservadas e os "headers" que possuem IPs dessas faixas podem ser desconsiderados:- 10.0.0.0 - 10.255.255.255; 172.16.0.0 - 172.31.255.255; e 192.168.0.0 - 192.168.255.255. Assim, considere na análise o próximo cabeçalho Received que contiver um IP válido (não contido nas classes anteriores).

Pode acontecer também, mas é bastante raro em caso de spam, que a mensagem contenha um header Received indicando como origem da mensagem um equipamento chamado localhost (ou localhost.localdomain) e endereço IP 127.0.0.1. Esse fato é mais freqüente em sistemas de webmail, onde um programa capta a mensagem digitada pelo usuário e a entrega a um servidor SMTP no próprio computador onde o webmail roda (em outras palavras, na prática a mensagem apenas "mudou de mãos", mas não de computador!). A seguir, o servidor SMTP em tal máquina entrega a mensagem ele próprio ao sistema de SMTP de destino ou a outro equipamento preparado para essa tarefa. Também não é necessário considerar esses Received na análise.

Finalmente, quando um único header Received é encontrado na mensagem - lá colocado pelo provedor que hospeda a caixa-postal de destino do correio - o spammer não utilizou o servidor SMTP do provedor em que se conecta, e nem mesmo um "open-relay" para isso, mas enviou-o diretamente de sua máquina conectada na Internet. Para isso, o spammer instala em seu próprio micro um mini-servidor SMTP, cuja função é fazer a entrega direta do spam. Essa prática generalizou-se a partir da disponibilidade, no Brasil, de serviços de conexão à Internet pela chamada banda larga (por meio de ADSL, como Speedy, através de cabo, como Vírtua e Net, e por meio de telefonia sem fio, como o Giro da Vésper). Aqui um exemplo de cabeçalho típicos dessa prática:

Received: from 200-158-152-45.dsl.telesp.net.br ([200.158.152.45] helo=HOTMAIL.COM.BR) by mx.xxx.com.br with smtp (Exim 4.22) id 1A7yqZ-000882-2y for xxx@xxx.com.br; Fri, 10 Oct 2003 12:06:27 -0300

 
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