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Enquanto você lê este texto, bilhões de e-mails inúteis entopem o tráfego da Internet e enchem caixas postais mundo afora. Fazem milhões de internautas desperdiçar um tempo precioso apagando mensagens não solicitadas e atrasam as comunicações legítimas. Chateação, queda de produtividade, perda de tempo: é o spam, a praga que alcança todas as pátrias e cresce numa velocidade alucinante. É uma guerra, e parece estar longe de terminar.
Os números dão a dimensão da briga. Só nos Estados Unidos o volume de spam cresceu 76% nos últimos 12 meses. A Brightmail, produtora de soluções anti-spam, aponta que dos mais de 70 bilhões de e-mails filtrados pela companhia em setembro, 54% eram spam. A empresa de consultoria em segurança MessageLabs informa que mais da metade de todo o tráfego de e-mails da Internet é constituído por spam (52% foi a marca registrada em agosto último). Isso equivale a mais de 30 bilhões de mensagens não solicitadas a cada dia carregando bobagens e propagandas, quando não programas maléficos.
Na Coréia do Sul, uma pesquisa publicada em março pela Korea Information Security Agency (Kisa) apontou que, na média, mais de 90% dos e-mails comerciais recebidos por usuários eram spam. Em maio, o número havia caído para 75% e desceu para 70% em julho.
De acordo com um pesquisador da Kisa, a queda de 20% é creditada à forte lei anti-spam, com multas que podem chegar a 10 milhões de won, equivalente a US$ 8.585. A geração automática de endereços de e-mail também é proibida na Coréia do Sul.
A praga também incomoda na China. E-mails provenientes de servidores identificados como fontes de spam serão bloqueados. Conforme o IDG, são 127 servidores ao todo: 90 de Taiwan, oito da China e 27 de outros países, como 16 servidores dos Estados Unidos e seis da Coréia do Sul.
Para as empresas, pesa ainda o enorme prejuízo financeiro. Afinal, perde-se tempo e tempo é dinheiro. Pesquisa realizada em outubro pela UNspam e pela Insight Express aponta que, dos norte-americanos que utilizam correio eletrônico no trabalho, 37% confessam ter a atenção distraída durante o expediente pelas mensagens não solicitadas e 45% admitem que produziriam mais se recebessem menos spam.
Dados do Gartner Group e da Ferris Research indicam a perda anual de bem mais de US$ 1 bilhão pelas empresas norte-americanas em função do lixo eletrônico. O custo total de combate ao spam chegou a US$ 8,9 bilhões no ano passado, diz o Gartner. No mesmo período, na América Latina, as empresas perderam US$ 1,75 bilhão. Em março deste ano, o instituto estimou que metade dos e-mails recebidos pelas empresas é de spam.
Outras estimativas dão conta de que o recebimento de spam vai causar às companhias no mundo todo, este ano, um prejuízo superior a US$ 20,5 bilhões. Em 2007, as perdas podem chegar a US$ 198 bilhões. Um estudo realizado com 150 grandes corporações em junho mostrou que o custo do spam por cada usuário deve aumentar da média de US$ 49 (2003) para US$ 257 (2007).
A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos alerta ainda para o fato de que 70% dos spams contêm mensagens falsas ou fraudulentas. Pela pesquisa da Comissão, mensagens falando de oportunidades de negócios e investimentos são especialmente suspeitas: 96% delas contêm alguma informação enganosa. Ao todo, 20% das mensagens de spam estudadas envolviam algum tipo de proposta para trabalhar em casa ou abrir franquias. As ofertas de pornografia ou serviços de encontros correspondiam a outros 18%. Cartões de crédito, seguros e hipotecas compuseram a terceira maior categoria, com 17%.
Todos são alvo de spammers
E a praga atinge até mesmo as crianças. Estudo realizado em junho pela Applied Research para a Symantec ouviu mil crianças e jovens entre sete e 18 anos nos Estados Unidos e constatou que quatro em cada cinco recebem spam com material considerado impróprio. Além disso, 80% dos entrevistados dizem receber grande quantidade de anúncios de sorteios e promoções; 62% já receberam spam com serviços de encontro e namoro e 47% receberam mensagens com links para sites pornográficos.
Os provedores também sofrem com a carga de mensagens e com as reclamações de seus clientes. O Yahoo alertou para o crescimento de 40% no volume de mensagens indesejadas entre janeiro e agosto. A empresa disse também que o número médio de relatórios de spam é de 700 mil por dia. Em março, o porta-voz da AOL, Nicholas Graham, contou que os filtros de software da companhia teriam eliminado 1 bilhão de spams em apenas um dia. Em recente reportagem, a Microsoft declarou que "em torno de 80% do tráfego de e-mail no mundo todo" é de spam.
O envio do spam se soma às práticas criminosas de seqüestrar máquinas para transformá-las em "cuspidoras de spam", na maioria das vezes sem que o dono perceba que seu equipamento está sendo usado para isso. Outro perigo é o chamado "scam", spam que copia a aparência de sites ou empresas legais e solicita dados do internauta. Embora pesquisas apontem que cada vez menos pessoas respondem às mensagens não-solicitadas, ainda existe quem o faça. Os internautas enganados acabam fornecendo suas senhas, dados de cartão de crédito, conta bancária... ou seja, se antes o spam era um incômodo, hoje ele também traz espiões e ladrões.
No início, o alvo principal desses spammers eram os correios corporativos, por meio dos servidores comprometidos, mas o reforço na segurança e a monitoração destes servidores depois dos atentados nos Estados Unidos em setembro de 2001 fizeram com que os usuários domésticos (principalmente aqueles que têm conexão com banda larga) entrassem na mira dos seqüestradores de máquinas. E esses spammers têm sido rastreados até a Ásia e América Latina.
A constatação é da britânica mi2g, que em relatório recente avisou: sistemas domésticos e de pequenas empresas podem estar sendo seqüestrados para enviar spam. O Brasil, diz o relatório, é um dos países com maior número de abusos. Outras nações apontadas são China, Coréia do Sul, Romênia, Rússia, Nicarágua, Argentina, Malásia, Guatemala, Filipinas, Arábia Saudita, Hungria, Espanha, Tailândia e Taiwan.
Ainda de acordo com o relatório da mi2g, China e Rússia abrigam grandes pólos de envio de spam. Já no Ocidente o spam vem, em sua maior parte, de computadores seqüestrados. São máquinas públicas e domésticas fáceis de atacar, que não contam nem com um firewall simples e ainda com a vantagem de terem, em sua maioria, IPS dinâmicos, o que dificulta o processo de rastrear o spammer.
Remando contra a maré
A luta contra o spam é, por enquanto, inglória. Leis, filtros, comunidades anti-spam, listas negras, bloqueio de domínio, envolvimento de governos e empresas, compromisso de usuários e provedores, consórcios, ligas e pesquisas, ação pessoal de internautas ofendidos, nada disso parece poder conter a onda e aliviar nossas combalidas caixas postais.
A Brightmail recomenda uma combinação de "legislação, tecnologia, educação e melhores práticas" para tentar resolver o problema. Ainda que se possa - e deva - tomar providências legais para processar spammers, na prática a coisa tem sido um pouco mais complicada. Há casos de processos bem-sucedidos, há as histórias de luta pessoal e também os insucessos.
Nos Estados Unidos, o artista gráfico Andy Markley teve seu domínio seqüestrado por um spammer, o que quase lhe custou a empresa, a reputação e a saúde mental. Seu provedor de acesso não quis ajudá-lo e, praticamente sozinho, ele conseguiu rastrear o spammer. A única ajuda que recebeu, por incrível que possa parecer, veio do provedor que hospedava a conta do spammer - um dos mais notórios dos Estados Unidos, aliás - que foi prontamente encerrada.
Outro internauta, o colombiano Juan Carlos Samper Posada, depois de receber várias mensagens não-solicitadas mesmo tendo pedido o descadastramento do seu endereço eletrônico por sete vezes, entrou com uma ação judicial contra os spammers Jaime Leonardo Tapias Gonzalez e Héctor Cediel. Em agosto, o juiz Alexánder Diáz García condenou-os a nunca mais enviar e-mails para Posada e os obrigou a eliminar o endereço eletrônico dele de suas listas de contatos. Provavelmente, foi o primeiro processo sobre spam na região.
Spam é um bom negócio?
Em fevereiro deste ano o site Wired News publicou uma reportagem propondo um "mergulho no mar do spam". A revista escolheu ao acaso 75 entre os spams que havia recebido e respondeu às mensagens pedindo mais informações. "A primeira constatação: responder a um spam sempre resulta em mais spam". Dos spammers pesquisados, 56% nunca responderam às mensagens enviadas a eles. Outros resultados da pesquisa: 16% dos spams eram fraudes descaradas, 11% deles geraram mensagens de erro dos servidores comunicando a inexistência do endereço e 17% retornaram respostas com o que pareciam ser ofertas legítimas de produtos.
Mas se todo mundo reclama, porque o spam não pára de crescer? Lucro, é claro! Em agosto, uma falha de segurança num site operado pelos vendedores de uma pílula de aumento do pênis expôs um registro de pedidos da Amazing Internet Products. Em quatro semanas, seis mil pessoas encomendaram o suplemento à base de ervas anunciado nos spams, a US$ 50 cada embalagem. A maioria das pessoas encomendou duas, mas teve quem comprasse quatro e até mesmo seis caixas da pílula que prometia um aumento de no mínimo 7,6 centímetros. Considerando que a companhia teve um gasto ínfimo para enviar suas mensagens e paga muito pouco aos parceiros de que dispõe, a margem de lucro é impressionante. Faça a conta!
Outra história emblemática é a de Sanford Wallace, que se tornou conhecidíssimo na Internet nos anos 90. Ele tinha orgulho do fato de sua empresa de e-mail marketing, a Cyber Promotions, enviar cerca de 25 milhões de mensagens por dia em 1996. Estima-se que, na época, "Spamford", como foi apelidado, fosse o responsável por 80% do spam que trafegava na rede. Em 1998, depois de muitos processos, ele mudou a forma mas tentou continuar no negócio, agora trabalhando com propaganda enviada com autorização do usuário - o chamado opt-in - e criou a SmartBot. Prosperou bastante, até que a crise das ponto.com levou os clientes embora. Convencido da ilegalidade do negócio, Sanford mudou totalmente de vida: hoje é dono de dois clubes noturnos em New Hampshire.
Em abril deste ano, a AOL, Microsoft e Yahoo anunciaram um trabalho conjunto para barrar o spam, impedir a criação de endereços fraudulentos e "retomar o controle do universo do correio eletrônico". Os países também se organizam, modernizam e endurecem sua legislação. Nos Estados Unidos, a lei aprovada recentemente pelo Senado pode causar ao spammer multas de até US$ 1 milhão. Inglaterra, Austrália, Coréia e outras nações buscam incessantemente combater o spam. O Brasil também debate leis específicas sobre o assunto. O movimento anti-spam é mundial, como a própria praga.
Do lado dos usuários, pesquisa da Pew Internet and American Life Project mostra que a ameaça do spam está fazendo com que os internautas usem menos a rede e passem a desconfiar da Internet e do correio eletrônico. Multas pesadas, ameaça de cadeia, processos, nada disso parece atemorizar os spammers. Para piorar a situação, spammers e crackers têm agido juntos e os usuários se vêem agora ameaçados por mensagens não solicitadas que, além da dificuldade de serem rastreadas, trazem worms ou programas espiões para coletar dados como senhas e números de cartão de crédito. E você, já examinou sua caixa postal hoje?
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