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A Digitalização não é a salvação
 
Alessandro Barbosa Lima*
 
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O fim do livro, das gravadoras e da fotografia já foi anunciado. E agora a culpa é dos bits, ou da digitalização dos conteúdos. Mas o que realmente muda?

Quando falamos de Internet e das últimas invenções proporcionadas pela tecnologia da informação somos geralmente tomados por um ímpeto destruidor. Tentamos decretar a morte de invenções que estão conosco há séculos, apenas por conta do desenvolvimento da tecnologia. Fim do livro, fim das gravadoras, fim da televisão, dos correios, enfim, a destruição geral do que consideramos antiquado.

Quando a Internet surgiu logo tentamos acabar com o livro. Dizemos: chegou a vez do e-book. A Amazon foi uma das primeiras a investir no e-book. Sidney Sheldon foi um dos primeiros autores a lançar um e-book comercial. Mas o e-book não passou de curiosidade para nerds entusiasmados ou defensores da digitalização.

Um dos papas do MIT, Nicholas Negroponte, já pregava no começo da década de 90, em seu livro A Vida Digital a digitalização de tudo que pudesse ser digitalizado. Passaríamos dos átomos para os bits em poucos anos. Os e-books chegaram, fizeram barulho, mas não mostraram a que vieram.

Em dez anos de Internet comercial, muito foi digitalizado, mas o e-book não aconteceu e o livro continua aí, apesar da explosão do consumo de computadores, celulares digitais e organizadores pessoais.

A decretada morte do livro não aconteceu. E provavelmente nunca acontecerá, como afirma Umberto Eco, que decreta que a morte, sim, é a do suporte. Talvez abandonemos o papel em prol de uma tela de cristal líquido super fina. Não é fácil entender que o suporte não mata a idéia. O pergaminho morreu, mas a escrita e o livro continuam aí. E daí toda esta confusão de que o digital e a digitalização irão acabar com tudo.

Ou fenômeno interessante é o da digitalização da fotografia. O sonho de consumo de nove em cada dez famílias brasileiras hoje é uma câmera digital. A foto digital acaba com a fotografia? Claro que não. Mudam os suportes. Fotos agora podem ser vistas na TV da sala, no computador do quarto ou no celular. Mas por incrível que pareça, a digitalização da fotografia está estimulando a venda de papéis fotográficos como nunca.

Todos agora querem imprimir e guardar as melhores fotos. E para guardar, nada melhor que trocar os bits por átomos, ou seja, colocar a foto no papel. Sem falar que agora fotografar ficou mais barato. Enquanto o filme eternizava e enobrecia a foto, ou seja, apenas momentos especiais mereciam um clique, a foto digital avisa que qualquer hora é uma boa hora para se tirar uma foto. Por qualquer motivo.

Outro drama exagerado é de que a digitalização vai acabar com o disco, com a indústria fonográfica. Talvez o suporte CD acabe, mas nunca a idéia de produzir e ouvir música. A prova cabal disso é o iTunes, que já está sendo copiado por inúmeros concorrentes, com seus 100 milhões de downloads de música. O que os consumidores do iTunes fazem com estas músicas? Eles colocam no suporte que mais apreciam. Em um MP3 player como o iPod ou mesmo no bom e velho CD.

E a gritaria contra e a favor da digitalização não pára. Os formatos especiais para digitalização de vídeo, como o DivX, não irão incentivar a pirataria e acabar com o vídeo doméstico, assim como o rádio e o jornal não foram destruídos pela TV. E muito menos o cinema pelo vídeo cassete.

Nem, por outro lado, devemos nos vangloriar de digitalização como salvação da pátria. A digitalização, sim, corta custos, promove desburocratização, mas não esqueçamos, também exclui. Na era onde se digitaliza tudo, já existem até os "excluídos digitais". A mudança de suporte, do átomo para o bit, não irá resolver todos os problemas do mundo. Podem ser criados inclusive novos problemas, como o da exclusão digital.

* Alessandro Barbosa Lima é consultor de Marketing On-line e autor do livro E-LIFE - Idéias Vencedoras para Marketing e Promoção na Web. Saiba mais sobre o autor, o livro e sobre seu trabalho de consultoria ou solicite palestras em sua empresa acessando www.elife.com.br ou enviando um e-mail para albali@elife.com.br
 

Redação Terra