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Num tom de voz constante, mas com discurso cortante, o presidente da Microsoft Brasil, Emilio Umeoka, enfrenta abertamente o governo federal, que está em defesa do software livre no país. Para o executivo brasileiro, o governo peca ao ideologizar a questão, falha na implementação de projetos e na interlocução com o setor.
"Se o país se fechar de novo - como fez na reserva de mercado da informática - para algo específico, daqui a 10 anos a gente vai acordar e vai estar disputando não sei com qual país a hegemonia de alguma coisinha mínima", disse Umeoka. "Tinha um chefe meu que falava: a irrelevância é o começo do fim."
Na década de 1980, o Brasil praticou uma política de reserva de mercado que inibia a importação de equipamentos de informática com o objetivo de estimular a indústria nacional. Avaliação cada vez mais corrente é que o país perdeu naquela época oportunidades de atração de investimentos estrangeiros.
Hoje o Brasil integra, nas discussões estratégicas de investimentos da Microsoft, o grupo Bric, que inclui ainda a Rússia, Índia e China. "A gente não está disputando um real ou um dólar, está vendo como a empresa consegue alocar de maneira mais correta o seu investimento em relação ao seu retorno", disse Umeoka, que participa do comitê.
Embora aponte o Brasil - onde faturou R$ 925 milhões no último ano fiscal - como um dos mercados com maior potencial de crescimento para a gigante do software, o executivo disse que decisões governamentais estão tirando o país do caminho certo.
"Nos setores, ministérios e governos com que a gente tem tido diálogo, temos conseguido trabalhar muito bem. Onde a gente tem encontrado um approach muito mais ideológico, não fundamentado pela área técnica, não se consegue discutir nada efetivamente", lamentou.
Ele admite que a intenção do governo brasileiro de abrir o setor público a programas de computador que não cobram licenças de uso, os chamados softwares livres, possa afetar a comunidade Microsoft no país. Em torno da empresa, gravitam 10 mil parceiros e 45 mil trabalhadores indiretos, gerando impostos de R$ 1 bilhão, segundo Umeoka.
Entre as ações pró-software livre que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou neste ano e meio estão o primeiro treinamento de cerca de 2 mil funcionários públicos e o início da substituição dos programas proprietários usados nos 300 mil computadores da administração federal.
O projeto de adoção do sistema Linux para a entregar de declarações de imposto de renda este ano recebeu duras críticas do presidente da Microsoft. Pelas contas da empresa, o governo gastou R$ 300 mil para desenvolver o programa e só conseguiu adesão de 3 mil dos 18 milhões de contribuintes neste primeiro ano.
"Não sei se essa é a melhor maneira de atrair investimentos para o país. Sei que essa não é a melhor maneira de criar um pólo de desenvolvimento para exportação porque não gera receita com algo que é grátis, a não ser em serviços", afirmou Umeoka.
O governo incluiu o setor de software na política industrial anunciada em março, com o objetivo de alcançar exportações anuais de US$ 2 bilhões em 2006. Elas foram de apenas US$ 115 milhões em 2002, ou 1,5% da receita do setor.
A determinação do governo Lula em incentivar o uso do software livre ainda não pesa sobre o resultado da Microsoft. As compras governamentais representam apenas 6 por cento das receitas da empresa e devem permanecer nesse patamar, segundo Umeoka.
Ele aposta na expansão no segmento de pequenas e médias empresas e, aí, outro desafio para a Microsoft é o volume de produtos não licenciados no país. No segmento de software, a pirataria domina 55% do mercado. Depois de ter caído fortemente, esse índice tem retrocedido apenas 1 ponto percentual ao ano desde 2000. Nas pequenas e médias empresas, supera 80%.
"Falta disposição do governo federal, da receita federal, de fechar a fronteira. A lei existe, a questão é fazer ela acontecer", afirmou o executivo, reconhecendo que a CPI da pirataria no Congresso foi um avanço.
Nas projeções de Umeoka, se a pirataria caísse de 55% para 45%, geraria de 12 a 15 mil empregos e mais R$ 1 bilhão ao ano em impostos. A desarticulação do governo, segundo o executivo, afeta até projetos sociais, que a Microsoft acaba desenvolvendo sozinha.
"O desafio do governo é criar também bons interlocutores. Se você for a vários ministérios, vão falar que inclusão digital é um objetivo, mas não há um ministério que tome a liderança. Esse negócio fica completamente fragmentado, isso tem sido um desafio", disse.
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