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A Internet tem provocado mudanças de poder nunca antes imaginadas. Primeiro decretou-se o fim do atravessador. De fato, empresas como Sony e Dell vendem direto ao consumidor, mas os varejistas continuam aí, na Internet e fora dela. Os dois modelos convivem - até o momento - sem conflitos.
A Dell é um exemplo de que o consumidor agora é quem tem o poder. O poder para decidir na fabricação do produto antes mesmo dele sair da linha de montagem. Hoje são computadores, amanhã automóveis, casas, enfim, todas as mercadorias.
Mas isso é apenas a ponta do iceberg. A facilidade de publicação de conteúdo na Internet poderia acabar com um dos mais antigos atravessadores do mundo, o atravessador de informações, a Imprensa?
A pergunta não é fácil de ser respondida, mas alguns fatos nos fazem acreditar que em breve não precisaremos mais da Imprensa como a conhecemos hoje, ou do quarto poder, como ela também é chamada, devido ao seu poder fiscalizador.
Como fiscalizador da sociedade, a Imprensa nos representa, é a atravessadora da opinião pública para a própria opinão pública, num ciclo que se realimenta. Amplifica opiniões e, pelo menos na teoria, divulga informações verdadeiras que garantem uma sociedade mais justa e democrática.
Mas se pensarmos um pouco no papel da Imprensa dentro da sociedade da informação que está sendo construída, podemos observar que há algumas mudanças, que silenciosa e lentamente poderão enfraquecer o papel desta instituição das sociedades democráticas.
A facilidade de propagar conteúdos através da Internet, em sites pessoais, blogs, correntes por e-mail comunidades virtuais e sites de notícias enviadas pelos usuários, como o Slashdot, estão mudando a face da informação e possivelmente mudarão o que conhecemos por Imprensa no futuro.
Em 1995, criei a primeira revista da Internet brasileira, a Revista Mundi. Na época, da produção da página à criação de imagens, era tudo muito lento e trabalhoso. Hoje, qualquer pessoa que conheça tecnologia e que saiba escrever pode se tornar um pretenso jornalista, divulgando informações sobre seu bairro, sua cidade, seu Estado ou país. Muitos usam este canal para falar de produtos. Se no passado revistas especializadas avaliavam veículos, e outros bens de consumo, hoje, estas avaliações são realizadas em comunidades online ou em blogs e sites pessoais. Não precisamos mais de atravessadores de informações.
Para um consumidor prestes a comprar um produto, a experiência coletiva de milhares de consumidores será mais valiosa do que a experiência de um único jornalista. As empresas pontocom não exageraram quando supervalorizaram o papel da Internet. Na Amazon ou aqui no Submarino, por exemplo, posso ao mesmo tempo ler resenhas dos visitantes e comprar o livro. Não precisamos mais da revista especializada em literatura.
Será que nossos filhos preferirão uma opinião profissional, muitas vezes não tão imparcial quanto deveria a várias opiniões de consumidores que efetivamente compraram o produto?
Muito já se pregou sobre o fim de tudo, do livro ao próprio planeta. Concordo com Umberto Eco que diz que o livro não vai acabar, mas talvez acabe o formato atual. A Imprensa não vai acabar, com certeza. Mas Imprensa não será mais alguém com um diploma de jornalista na parede. Não se trata de discutir fim do diploma ou não. A discussão é mais nobre. Acredito que Imprensa seremos todos nós, com disposição para disponibilizar conteúdo na Internet e com credibilidade para ser lido e referenciado por outros.
A maior revista, o maior jornal, toda a informação sobre qualquer assunto está hoje disponível na Internet. Não em sites, em locais específicos, mas espalhado como uma erva daninha, como um rizoma. Hoje para achar conteúdo específico ou saber a cotação da bolsa de valores é mais fácil se apontarmos nossos navegadores para um veículo de Comunicação qualquer. Só a próxima geração de mecanismos de busca e agentes inteligentes poderão reunir estas informações de forma organizada e criar uma revista ou jornal personalizados, impresso em papel especial, toda manhã, como os computadores da Dell, sob demanda.
Por enquanto temos jornalistas escrevendo em Meios de Comunicação respeitáveis. Assessores de Imprensa tentando divulgar informações nestes meios e depois monitorá-las. E leitores.
No futuro, teremos leitores que também escreverão. E especialistas em Informação e Comunicação que ao invês de enviar relises mecânicos para meios de comunicação divulgando as empresas que representam irão aprender a gerar boca-a-boca sobre produtos e serviços para todos nós leitores-jornalistas da Internet. Não haverá poucos alvos, todos seremos alvos. Todos que escrevem em seu blog, site pessoal ou numa comunidade on-line contribuirão para a inteligência coletiva ou opinião coletiva sobre qualquer assunto. Os formadores de opinião serão a chave para a Imprensa e para as Relações Públicas do futuro.
Por enquanto, dou uma boa olhada no meu diploma de Jornalismo da UFPE, 1994, e fico pensando nos bons e românticos tempos onde sabíamos exatamente o mundo em que vivíamos.
Mais sobre este tema, no meu livro. Aguardo e-mails dos leitores sobre o tema.
* Alessandro Barbosa Lima é consultor de marketing em meios eletrônicos e autor do livro E-LIFE - Idéias Vencedoras para Marketing e Promoção na Web.
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