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Nicholas Negroponte, um dos fundadores do MIT Media Lab, esteve no Brasil recentemente dando palestras sobre inovação e futuro em tecnologia. Negroponte dirige o Media Lab da Europa, mas continua vinculado ao instituto americano.
Autor de A Vida Digital, um dos livros mais vendidos em todo o mundo sobre a influência da Internet nas sociedades, Negroponte aposta no fim do fio, prevê uma migração das cidades e, como recomendação para os brasileiros, pede para "manter o desrespeito pela autoridade estabelecida". "O Brasil é um país criativo e seu amor por atividades descentralizadas deve ser transformado em sua maior riqueza", disse ele.
Pergunta - Nesta passagem rápida de menos de uma semana pelo Brasil, você teve oportunidade de conhecer alguma iniciativa de inclusão digital ou software livre que chamasse sua atenção? O que você pode observar e recomendar para os brasileiros com relação às mudanças em tecnologia?
Negroponte - Infelizmente, não. Foi tudo muito rápido. Fiquei sabendo de algumas, especialmente sobre software livre, mas prefiro não comentar por não ter tido tempo de saber muito a respeito. No entanto, o que eu sei do Brasil é que é um país muito informal, que mantém um desrespeito pela autoridade estabelecida. Como com o samba, o brasileiro gosta de uma atividade descentralizada, anárquica. Outros países como China e Alemanha, por exemplo, têm a disciplina como um valor fundamental. E esse valor pode não levar a nada na compreensão das mudanças em tecnologia. Já o Brasil é um país criativo, que consegue impor novos modos de pensar muito mais de baixo para cima (da maioria da população à elite) do que de cima para baixo, e esse tipo de atividade descentralizada deve ser transformada em sua maior riqueza.
"O conceito mais importante é tecnologia viral."
P - Quais são os passos principais para estar à frente das mudanças em tecnologia?
N - Uma grande idéia é aprender a ouvir os jovens. O Brasil tem uma grande população entre 15-25 anos de idade. Eu disse na minha palestra em Belo Horizonte que era necessário ouvir os jovens e o público ficou surpreso. Ouvir os jovens não é algo que se incentive mas é muito importante. São os mais jovens que podem nos dizer quais são as mudanças primeiro e o que devemos fazer em relação a elas. Outro conceito, o mais importante, é a idéia da tecnologia viral. Tudo o que "pega" tão rapidamente que não possa ser previsto é o caminho das tecnologias a serem adotadas no futuro. A Internet foi uma tecnologia viral, duas pessoas se conectaram, depois vieram outras e mais outras e logo se formou uma rede mundial. Essa tecnologia que se espalha mostra que nem tudo deve ser feito de cima para baixo, sob o comando de um pequeno grupo. A tecnologia adotada e espalhada por uma maioria de pessoas é a que vale a pena.
P - Assim como você previu uma "vida digital", você prevê uma "vida sem fio" no futuro? Teremos conexão o tempo todo em todos os lugares?
N - Sim, totalmente wireless. (entusiasmado Completamente wireless! Nossos netos vão ficar horrorizados quando souberem que utilizamos fios para usar nosso computador. E não estou falando apenas de fios de conexão. É um absurdo utilizarmos fios para energia elétrica, também. Isso vai acabar. Quanto à conexão em todos os lugares, já é uma realidade. Quando eu pego um táxi em Nova York, consigo interceptar até 20 sinais de redes Wi-Fi em cada quarteirão. E não é só nas cidades, a Internet sem fio também levou a conexão banda larga aos lugares mais remotos.
"Qual será o uso das cidades no futuro?"
P - No futuro não precisaremos então estar nas cidades para utilizar a Internet? Você prevê uma migração das cidades, já que teremos comunicações em qualquer hora, a qualquer lugar?
N - Sem dúvida! Já acontece uma reversão na tendência de migração para as cidades. A América Latina, principalmente, passou por uma urbanização intensa. O objetivo era fugir da "simplicidade rural", trocá-la pela "riqueza urbana", sendo que nenhum desses conceitos é mais seguro. O que se chama de "simplicidade rural" não é pobre de modo algum, é no campo que se encontra uma alta qualidade de vida. E as telecomunicações são as grandes responsáveis por reverter esses conceitos. Haverá uma mudança dramática. Qual será o uso das cidades no futuro? As cidades não passarão de um lugar de acasalamento. É aonde você vai para encontrar pessoas. A distribuição da riqueza vai ficar muito mais eqüitativa entre campo e cidade.
P - Você dirige o Media Lab da Europa há cerca de um ano. Quais as principais diferenças que pode notar entre o Media Lab da Europa e dos EUA e na pesquisa tecnológica em geral entre os dois continentes?
N - As diferenças são relacionadas aos perfis dos dois locais. Na Europa, as pesquisas multilingüísticas e multiculturais são muito mais freqüentes, mais importantes e fáceis de fazer. Isso acontece por causa da riqueza cultural européia e da proximidade de tantos países de diferentes culturas. Não acho, no entanto, que a pesquisa multidisciplinar seja mais forte na Europa. Nos EUA, há mais porosidade entre as linhas de pesquisa, elas sempre se encontram e se complementam com mais facilidade.
"The Edge traz inspiração a todos do MediaLab"
P - Há cerca de um mês, o cantor e líder do U2 Bono Vox saiu do conselho diretor do Media Lab na Europa que você dirige. Em seu lugar, entrou o guitarrista da banda, The Edge. Você pode comentar um pouco sobre a chegada de The Edge e o que ele representa para o MIT?
N - Bono era um grande colaborador, mas era muito difícil para ele participar de tudo. Sua agenda era sempre muito cheia. Sua saída foi uma pena, mas a chegada de The Edge foi algo muito positivo. Quando The Edge chegou, ele já impressionou. Ele é muito hábil em tecnologia. Ele é um dos membros do conselho diretor mais cheio de idéias. A sua fama como músico confere também uma imagem muito interessante ao instituto. Principalmente, ele trouxe muita inspiração a todos do Media Lab. A contribuição de The Edge será importante no campo da multidisciplinaridade, ajudando a perceber como a pesquisa em tecnologia pode ter a ver com diversas outras áreas do conhecimento.
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